Uma terra de contrastes – Reportagem vencedora do Prêmio Esso de Jornalismo Econômico

DECO BANCILLON

Enviado especial

São Gabriel da Cachoeira (AM) — Nas últimas três décadas, à medida que, no Brasil urbano, os planos econômicos e as diversas trocas de moeda imprimiam a marca da desconfiança sobre o país, em São Gabriel da Cachoeira, cidade encravada na selva amazônica, no comércio local ainda imperava o escambo. Na falta de uma moeda forte que inspirasse confiança, a população se apegava ao que, de fato, tinha valor econômico no município mais indígena do país: terras, alimentos e, principalmente, ouro.

Do aluguel de uma residência à caixa de sabão em pó vendido na feira, quase tudo podia ser comprado com o minério extraído da terra. Uma realidade que só começou a mudar a partir de 1º de julho de 1994, quando, a bordo de um avião Bandeirante, o real, enfim, desembarcou no ponto mais extremo a noroeste do Amazonas, na tríplice fronteira entre o Brasil, Colômbia e Venezuela, numa região conhecida como Cabeça de Cachorro.

Ressalvas não faltaram à nova moeda. “No começo, eu fiquei meio desconfiada com aquele dinheiro novo, porque era bem pouquinho, e não um montão de notas que eu recebia antes”, relembra a dona de casa Koracy, 39 anos, uma índia baré que há duas décadas passou a se chamar Clarice de Lima Horácio, uma prática comum entre os moradores da urbana de São Gabriel da Cachoeira.

O receio deu lugar à esperança de que o plano econômico vingasse. “A gente tem que tirar o chapéu para o real, porque é uma moeda que ninguém dava nada, mas está aí até hoje”, constata o garimpeiro Julio Alexandre Brito, 53 anos. Vinte anos depois da implantação da moeda, nas operações cotidianas como cortar o cabelo, comprar uma pizza ou acessar a internet — ainda que isso possa levar de 10 a 15 minutos apenas para abrir o email — o real se faz presente no município mais indígena do país, onde o português é apenas uma das três línguas oficiais, ao lado do nheengatu (língua geral), do tukáno e do baníwa-kuripáko.

A chegada do real, no entanto, apenas aumentou a desigualdade numa terra já marcada por contrastes. Em meio a ruas esburacadas por onde corre esgoto a céu aberto, pedestres disputam espaço com motocicletas, carros velhos e caminhonetes que custam, por baixo, R$ 150 mil. O caos que impera no trânsito em nada lembra uma cidade de apenas 41,5 mil habitantes, segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para 2013. O mesmo pode-se dizer dos preços praticados pelo comércio local, que de tão altos fariam qualquer morador do Lago Sul cair de queixo. Um pote de requeijão cremoso da marca mais barata não sai por menos de R$ 8 num supermercado de São Gabriel da Cachoeira. No bairro mais caro de Brasília, um similar de mesma marca é encontrado pela metade do preço.

Sem estradas transitáveis, a maioria dos produtos que abastece o município chega de barco ou avião. O frete mais caro é embutido nos preços, em média 40% mais altos do que os praticados na capital amazonense, Manaus, que ostenta uma das maiores inflações do país. Em São Gabriel da Cachoeira, os preços também sobem por conta dos salários pagos aos mais de 1,8 mil homens do Exército lotados nos dois batalhões que protegem a tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Colômbia. Somados, os rendimentos dos militares resultam numa injeção mensal de R$ 8 milhões no comércio da cidade.

A proximidade com países vizinhos também fortalece a escalada dos preços. “Muita gente da Venezuela e Colômbia acaba vindo comprar comida e roupas aqui, em São Gabriel da Cachoeira. Para gente, que tem comércio, é muito bom, porque nunca falta cliente”, reforça o colombiano naturalizado brasileiro Lubian Cilis Toro, 48 anos, dono de um de um pequeno armazém localizado numa das áreas mais nobres da cidade. A família toda imigrou da Colômbia para abrir comércios na cidade. A empolgação com o Brasil só não é maior em função dos preços considerados absurdos dos imóveis. “Esses dias eu consultei a proprietária do prédio que eu alugo para querer comprar. Mas não tem como. Ela quer vender duas salas comerciais pequenas por R$ 2 milhões. Está muito caro”, constata.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s