Favela de índio à beira do Rio Negro

A instalação de uma agência da Previdência Social no município, no fim do ano passado, fez os preços dispararem ainda mais. Do dia para a noite, a cidade foi invadida por milhares de famílias indígenas, atraídas pela promessa de benefícios pagos pelo governo, como o Bolsa Família, auxílio maternidade e aposentadoria rural. Quem tinha espaço para alugar faturou alto com o desespero das famílias que ainda conseguiam pagar por moradia. Os extremamente pobres, por sua vez, acabaram montando barracos às margens e no meio do Rio Negro.

Ainda hoje, onde há pedras e rochedos, há uma família instalada. Os aglomerados precários evoluíram para pequenas favelas, batizadas de Vila Azul, por causa da cor das lonas improvisadas como abrigo para os indígenas. “Na semana passada, um raio caiu numa dessas barracas e matou uma índia adulta. O filho dela, que não tinha mais do que 2 anos, também foi atingido, e teve 20% do corpo queimado”, recorda uma assistente social, que pediu para não ter o nome revelado.

São sintomas de uma cidade que, apesar de rica, não conseguiu traduzir em desenvolvimento todo o dinheiro que circula nos comércios. Quatro anos após a implementação do real, em 1998, apenas 1,2% das residências de São Gabriel da Cachoeira tinha acesso à rede pública de esgoto. Mesmo hoje, essa é uma realidade que atinge boa parte da população, a maioria indígenas, como o lavrador Xavier Durão Riveira, 54 anos.

Não fosse a determinação em querer mudar o curso da própria vida, ele estaria, ainda hoje, sem um teto para os filhos e netos, todos indígenas da etnia Baníwa-Kuripáko. Os dias duros de trabalho na lavoura geraram frutos que ele hoje colhe com alegria. A casa que construiu “com as próprias mãos”, como gosta de lembrar, não tem luxos. Pelo contrário. O esgoto é a céu aberto e o abastecimento de água é proveniente da chuva. Se não é a vida que sonhou, é, pelo menos, uma vida melhor do que Xavier tinha quando morava na mata, como ele diz. “Estou bem aqui. Estou feliz”, confidencia.

Xavier acredita que a vida urbana poderá proporcionar aos filhos um bem maior do qual só ouve falar: o valor de conseguir ler e escrever o próprio nome. “Eu luto, todos os dias, para que meus filhos tenham um futuro melhor do que o que eu tive. Para que cresçam bem e consigam um trabalho decente”, conta.

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