Conexão em nheengatu

Conexão em nheengatu

Até 2003, quatro entre 10 habitantes de São Gabriel da Cachoeira eram considerados pobres pelo IBGE. Em 2010, esse contingente pulou para 56% da população. Desses, 90% são indígenas de 22 etnias, que falam línguas tão diferentes que se optou por agrupá-las em quatro famílias linguísticas: Tukáno Oriental, Aruák, Makú e Yanomámi. Combinadas, dão origem a uma língua geral, o nheengatu, um dos três idiomas oficiais falados em São Gabriel da Cachoeira.

As diferenças cultuais não param por ai. Muitos indígenas vivem em territórios tão extremos que sua nacionalidade poderia facilmente ser descrita como brasileira, venezuelana ou colombiana. A maior dificuldade de quem ainda mora nessas localidades é vencer a imensidão de um dos maiores municípios do país. Para que se tenha dimensão da área de São Gabriel da Cachoeira, sua extensão é superior à soma dos territórios do Distrito Federal, Rio de Janeiro, Alagoas e Sergipe, juntos.

Outro problema é a falta de acesso, já que há, basicamente, duas opções de acesso. Partindo de Brasília, a viagem de avião pode levar até 30 horas, dependendo de conexões e horários disponíveis de voos. O preço também incomoda: R$ 2,4 mil, valor desembolsado pela reportagem para viagem planejada com dois meses de antecedência.

Mais barata, a opção pelo barco é também a mais arriscada. A navegação no Rio Negro exige cuidado e pode levar até uma semana, dependendo do nível da água em determinadas épocas do ano. O trajeto de pouco mais de 850 km entre Manaus e São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas, chega a custar R$ 350. Não raro, há naufrágios, como em 2004, quando uma embarcação afundou com 80 pessoas três horas depois de partir de Manaus. O acidente matou 14 pessoas, cinco delas turistas.

O risco aumenta na proporção em que diminui o tamanho da embarcação. Nos povoados do Alto Rio Negro, o meio de transporte mais popular é a canoa indígena com motor de cauda, popularmente chamada de voadeira. Estreitas e rasas, elas podem afundar a qualquer adversidade, como correnteza mais forte.

O Correio embarcou numa voadeira numa travessia entre o porto de Camanaus, de onde partem as embarcações para Manaus, até a margem direita do Rio Negro. Todo o trajeto não levou mais do que 10 minutos. Mesmo assim, o risco era iminente.

A todo instante, porções cada vez maiores de água invadiam a embarcação. No comando da voadeira, um índio Tukáno de pouco menos de 14 anos fazia pequenos ziguezagues para fugir de pedras no fundo do rio. Ao chegar ao destino, um aviso: os relâmpagos que cravejavam o céu amazonense durante aquela tarde quente de primavera denunciavam a chegada iminente da chuva. Dependendo das condições climáticas, avisou o comandante-mirim da embarcação, não seria possível fazer o trajeto de volta até o porto de Camanaus.

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