A riqueza aos próprios pés

A riqueza aos próprios pés

No mesmo solo onde são enterradas centenas de crianças indígenas que morreram famintas, repousa a maior reserva mundial de nióbio, um mineral raro cuja tonelada chega a custar US$ 25 mil no mercado internacional. O Brasil detém 98% das reservas de nióbio do mundo, e estima-se que boa parte das jazidas encontra-se em São Gabriel da Cachoeira. Em 2010, um documento vazado pelo site WikiLeaks revelou o interesse dos Estados Unidos no solo amazonense. O documento classificava as reservas de nióbio brasileiras como “estratégicas” e “imprescindíveis” às necessidades de expansão dos EUA.

O nióbio é um mineral altamente resistente à corrosão e a temperaturas extremas. Por isso, é usado em larga escala na fabricação de ligas de aço, turbinas de avião e foguetes, aparelhos de ressonância magnética, gasodutos e nas indústrias bélica e nuclear. Não à toa, o mundo passou a olhar atentamente para São Gabriel da Cachoeira, que detém cerca de 10% das reservas provadas do nióbio existente no mundo.

Mas nenhum grama está à venda hoje. Isso porque cerca de 80% do território de São Gabriel são demarcados como áreas indígenas. Com leis mais duras de proteção desse território, outras atividades de mineração, como o ouro, também perderam força. Até os anos de 1990, o município foi cenário de uma intensa e violenta corrida ao metal. “Todo dia a gente via o corpo de algum garimpeiro boiando no Rio Negro”, relembra a comerciante Iraci Moreira Alves, 59 anos.

Como boa parte da extração era feita nas profundezas do rio, ao subir com o metal recolhido, o garimpeiro se tornava alvo de saqueadores. Muitas vezes, diz Iraci, a ameaça estava na cobiça dos próprios colegas de profissão. “A gente via muita morte por causa do ouro. Muita riqueza e muita tristeza ao mesmo tempo”, conta.

Com o fim do garimpo, a fonte que fazia jorrar dinheiro no comércio da cidade secou. Pessoas que viviam da compra e da venda de ouro se viram obrigadas a buscar outra forma de ganhar o pão. Entre os afetados, poucos sentiram tanto o peso da mudança quanto José Ari de Sousa. Em 1994, quando o país lançava o Real, ele ostentava o feito de ser, aos 36 anos, o maior comerciante do metal na região.

Não havia ouro que ele não pudesse comprar. “Já cheguei a pesar mais de um quilo do metal na minha balança”, recorda José Ari. Com o fim do garimpo, no início dos anos 2000, ele montou um bar, mas o negócio faliu. Tempos depois, decidiu entrar no negócio de transportes. Hoje, é proprietário de dois táxis que são usados como lotação de passageiros, um negócio promissor em uma cidade que não tem uma linha de ônibus comercial. “Minha vida sempre foi trabalhando. Se não deu mais para comprar ouro, eu botei um bar. Se não deu mais o bar, eu fui para a lotação”, resume.

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