Unesco chega à capital para avaliar se Brasília continua sendo Brasília

Em Brasília, pedestres disputam lugar com carros no trânsito

Por Deco Bancillon

Dois comissários da Unesco chegam hoje à capital para avaliar se Brasília continua sendo Brasília. Vão percorrer ruas e setores urbanísticos e ponderar se em dez anos (a última visita da Unesco foi em 2001) o projeto de Lúcio Costa permanece imaculado.

Técnicos do governo Agnelo estão de cabelos em pé. Afinal teme-se, ainda que de forma tímida, que Brasília seja incluída na lista dos países com patrimônio em risco.

Além de ser péssima propaganda e munição extra à oposição, sabe-se que uma reclassificação brasiliense desagradaria muito o grão-vizir do Plano Piloto, o arquiteto centenário Oscar Niemeyer.

E se há uma coisa que ninguém em Brasília cogita fazer é desagradar Niemeyer. O ex-governador e ex-presidiário José Roberto Arruda foi quem chegou mais perto de peitar Niemeyer, mas acabou recuando da ideia de erguer obstáculo que separaria as vias opostas do Eixão.

O projeto era uma saída para conter as crescentes mortes por atropelamentos na via, constantemente usada por pedestres apressados (note-se que também não existe opção viável para travessia no Eixão, já que as passarelas são extremamente distantes uma das outras, além de sujas e inseguras).

A intervenção ganhou o carimbo de técnicos do governo e o apoio de engenheiros de tráfego respeitados, mas acabou vetada pelo todo-poderoso de Brasília, Niemeyer.

As mortes continuaram, mas a Unesco não pareceu se importar. De certo julgaram que os óbitos no trânsito eram efeito colateral de uma cidade pensada para motoristas, e não para pedestres.

Essa é a única explicação que me ocorre quando constato que o primeiro relatório da Unesco, em 2001, esteve mais preocupado em condenar o crescimento urbano da Vila Planalto e dos hotéis à beira do Lago Paranoá do que apontar para a completa inexistência de ciclovias e calçadas em Brasília.

Tenho para mim que os técnicos da Unesco não costumam andar a pé. Mas deveriam. Só assim perceberiam que não há vez aos pedestres por aqui.

Tente andar pelo calçadão do Eixinho, seja Norte ou Sul. A cada quadra, bizzaramente, acabam as calçadas, e o pedestre tem que atravessar uma tesourinha correndo para não ser atropelado. Não há faixa, recuo ou mesmo espaço para que uma pessoa ande seguramente por ali, apesar de ser o único trajeto possível para quem deseja ir de uma quadra para a outra sem ter que subir até a comercial e atravessar no sinal.

Note que esse não é um problema causado pelo crescimento populacional de Brasília, expressão que de tão manjada acabou se tornando um mantra dos governantes que passaram por aqui. Já em 21 de abril de 1960 era nítido que nenhum pedestre conseguiria trafegar em segurança por ali, mesmo que houvesse mais poeira do que carros e mais obras do que pessoas.

Foi um erro, sem dúvida, do urbanista Lúcio Costa, que previu uma cidade sem pessoas, quando o ideal e moderno era prever uma cidade sem carros. Espanta que o projeto original de Brasília não contemplasse calçadas largas e ciclovias, já que se tratava de um projeto de vanguarda, que prometia criar uma cidade à frente do seu tempo.

Certa vez conversava com uma portuguesa que vivia há bastante tempo em Berlim, uma cidade exemplar no trato aos seus pedestres. Na conversa, ela quis saber como funcionava Brasília. Disse a ela que não tínhamos esquinas clássicas, como em quaisquer cidades que ela tenha conhecido, e que aqui as ruas não tinham nome, como na música do U2.

Expliquei a ela que em Brasília as pistas de carros eram em sua maioria sobrepostas, evitando os cruzamentos, e também as esquinas. Mas ela ficou um pouco mais intrigada e perguntou se essas vias também eram usadas pelos pedestres, ao que eu respondi que não. Talvez pelos ciclistas, ela quis saber. Eu também neguei. Então por quem, apenas por carros? Sim.

“Então deve ser um cidade poluída. E se não é, vai ser. Não consigo imaginar um lugar onde as pessoas não tenham por onde andar, nem usar bicicleta”, disse a portuguesa, acostumada apenas com a realidade europeia. Eu não tive outra forma de defender Brasília que não fosse elogiar nossa belíssima arquitetura e projeto urbano, com superquadras e setores de setores, ruas de uma coisa só, e endereços sem nome.

É verdade que a ousadia do projeto é algo singular na história do urbanismo mundial, com uma grande menção ao projeto arquitetônico de prédios públicos e monumentos de Oscar Niemeyer.

Brasília é realmente belíssima, encantadora e única. É, possivelmente, a cidade mais singular que já conheci de todas as grandes cidades belas e únicas do mundo. Mas daí dizer que é perfeita é um grandioso erro.

Espero que a Unesco se dê conta disso, e proponha em seu relatório intervenções que sejam mais do que estéticas, mas funcionais. Os brasilienses esperam viver em uma cidade que privilegie o brasiliense, e não apenas prédios suntuosos e avenidas largas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s