Denuncismo raso é fruto do despreparo das equipes

É difícil saber quando se está certo ou errado a respeito de uma decisão tomada.

Quando se é jovem, cheio de planos e de dúvidas, a única certeza que se tem é que cada passo dado, para um lado ou para o outro, pode produzir consequências enormes, geralmente indesejadas.

Essa, afinal, é uma das poucas certezas que se tem na vida. De que ações têm consequências, sejam elas boas ou ruins, e que elas vão definir boa parte de quem você é ou deseja ser por boa parte da sua vida.

O vestibular é talvez o primeiro desses dilemas.

Escolher entre fazer o que você acha que gosta ou o que você acha que pode lhe dar dinheiro, ascensão, estabilidade, desafios.

A escolha por cursar jornalismo foi o primeiro grande passo em direção à pessoa que sou hoje, é verdade, mas acredito que só fui tomar gosto pela coisa lá pelo meio da faculdade, quando já tinha experimentado os campos da política e das artes, e visto que em nenhum deles eu havia me achado totalmente.

A redação de jornal foi uma paixão louca e desmedida que vivi por um bom tempo, e pela qual fui levado a achar que esse era o melhor caminho para se fazer algo de construtivo para a sociedade, para os filhos que ainda não tenho ou para estar perto da história, ainda que nos bastidores.

Até os dias mais duros e as pautas mais tristes que fiz são lembrados com nostalgia e uma boa sensação de dever cumprido. Mas só são lembrados assim agora porque fazem parte de um passado recente que ficou marcado como positivo em minhas memórias.

Mas ao voltar um pouco no tempo, lembro de não ter essa mesma percepção quando vivi essas histórias. Na verdade, ainda tenho para mim que estar presente em uma cena de crime, manifestação violenta ou em longuíssimas coletivas de imprensa são, de fato, coisas que nenhuma pessoa deseja ao acordar pela manhã.

Mas esse, acredite, não é o motivo que leva pessoas como eu a querer mudar de ares, ainda que temporariamente, das redações para as assessorias, da condição de entrevistador para fonte, o outro lado do balcão.

O salário é, sim, melhor do lado de cá do que do lado de lá. O trabalho, mesmo quando duro, é menos estressante e mais humano. A vida é mais vivida, porque lhe sobra tempo para vivê-la, e isso é algo que pesa bastante no fim das contas.

As redações são lugares onde ninguém percebe o horário que você entra, mas tem todos os olhos para o momento em que decide ir pra casa. Afinal, é dever do jornalista viver para a profissão, sacrificar-se em prol da matéria publicada, do furo, da manchete.

É responsabilidade do jornalista ser um bom cidadão, questionador, contundente, crítico. É recomendado ao jornalista que tenha cultura, que saiba falar inglês e espanhol, que tenha experiências de viagens internacionais, e que conheça as grandes obras literárias. Que leia cinco jornais por dia, três revistas semanais, escute o noticiário de rádio a caminho do trabalho.

A vida lhe cobra muito e te dá pouco em troca. E o resultado disso é que há cada vez menos conhecimento e cada vez mais opinião no jornalismo feito hoje. O repórter é treinado para tirar da fonte o lide, o assunto polêmico, a declaração contundente. O denuncismo vende jornal e agrada ao anunciante. Mas encobre as discussões nacionais, o mérito, a solução para o problema.

Até meados de junho, os principais jornais e revistas do País debruçavam-se sobre o caso Palocci, e tudo o que se descobria de suspeito ou errado ganhava imenso destaque no noticiário nacional. O efeito produziu o resultado esperado, e o então homem forte do governo Dilma Rousseff caiu pela segunda vez na história da política.

Mérito dos jornais, que cobraram explicações para o enriquecimento repentino do médico sanitarista, mas que expõe um defeito cada vez mais recorrente na imprensa brasileira: a memória curta. Palocci caiu porque suspeitava-se que ele tivesse negócios escusos e informações privilegiadas durante o tempo em que foi deputado federal e articulador da equipe de transição do governo Dilma.

São denúncias sérias, e que foram esquecidas pela imprensa a partir do momento em que Palocci decidiu colocar o cargo à disposição da presidente, deixando, assim, o centro do debate nacional e saindo dos holofotes da imprensa. Caíram com Palocci a atenção dos jornais para o tema, as matérias que traziam detalhes sobre sua movimentação financeira e acúmulo patrimonial, o interesse da opinião pública para o assunto.

A prova de que o jornalismo de profundidade e de serviço ao País, hoje, serve apenas ao propósito da conveniência da novidade, do escândalo, da manchete de jornal. O futuro desse jornalismo é incerto para algumas plataformas, como dos impressos, e garantido para as novas mídias, o Ipad, os tablets.

Mas será mesmo esse o jornalismo que o País precisa para se desenvolver plenamente? Sem tempo para ler, viajar, estudar, nossos repórteres continuarão fazendo as perguntas erradas e nos dando as respostas que só servem no calor dos fatos. E foi por isso que decidi olhar esse movimento com certo distanciamento, com o propósito talvez de um dia voltar para o lado de lá e escrever as coisas que eu acho que o Brasil precisa debater.

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2 comentários em “Denuncismo raso é fruto do despreparo das equipes

  1. Li de novo o meu texto e vi que está mais para desabafo do que para um encadeado de ideias. Mas continuei sem entender se o que você propõe é que eu acabe com o blog porque está ruim ou porque não tenho mais nada a dizer. É isso?

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